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Em maré calma

  • 28 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

A fruta da criação é uma das minhas preferidas de morder. Seu sumo doce parece que cura qualquer coisa que exista pra ser curada. Não há maior injeção de serotonina na minha vida do que sentir nascer alguma coisa. Pode ser um som, pode ser um texto, uma melodia, o jeito de ajeitar a minha casa como ela me pede pra ser ajeitada. Se eu estiver obedecendo à fome - porque é ela quem escolhe a linguagem, o tema, o tom - a fruta se oferece para mim e eu a mordo como quem conhece cada pedacinho daquilo que come, ainda que criar seja sempre encontrar algo desconhecido.

Esse embolo bom acontecendo todo ao mesmo tempo, ao mesmo tempo se reecontrar e não saber o que será, acho que é o caminho inerente à toda criação que segue seu curso natural, o bom e velho de dentro pra fora.

Mesmo quando é encomendada, duvido que ali não exista ao menos um quêzinho de estar em si.


Mas eu não costumo criar por encomenda, por obrigação, por demanda de trabalho.

Eu trabalho dando aulas de canto e cantando. Sim, as aulas eu crio e cada som que sai da nossa boca é, inevitavelmente, criado por nós, mas, o que quero dizer, é que ninguém me paga pra eu escrever textos, compor músicas, arrumar a casa....então eu não tive que aprender a repetir incessantemente essas formas de criar sem me perder de mim.

Que é o que se precisa aprender quando trabalhamos diariamente com qualquer coisa e as linguages artísticas não fogem à regra.


Não, se eu quero escrever, compor, dançar, mexer nos objetos da casa eu vou específicamente pra morder a fruta. Ela me chama como imã, se tivesse olhos diria que me vê profundo e me convida.

Eu a confundo, às vezes, com a fome literal por comida. Eu a confundo com tanta coisa, aliás. E há os dias em que não há confusão alguma, há entrega e eu suporto,.

Eu suporto o preço que pago pra adquirir o doce tão doce do sumo da fruta, que é não evitar seja lá o que for que estiver dentro de mim exigindo ser expresso.


Queria saber suportar a mim mesma dessa forma toda vez porque é tão bom.

Se fosse possível manter em mim, sempre em alguma camada, uma maré calma em que tudo boia, onde tudo cabe, talvez eu criasse mais vezes.


Outro dia a fruta me apareceu de forma diferente e rara.

Uma amiga que é escritora e bailarina, a genial Aline Bernardi, lançou seu segundo livro de artista, um livro de poemas chamado "Umbigo, poemas lunares", e me convidou para fazer uma performance com um de seus poemas no dia do lançamento.

Podia ser leitura falada, podia ser uma leitura cantada improvisada, podia fazer uma música com o poema, muitas bailarinas fizeram leituras dançadas, foi lindo.

Resolvi compor.


Não acho fácil compor melodias pra poemas e tenho dificuldade de compor em parceria. Fazer letra pra uma melodia que não saiu de mim ou achar as notas de um texto que eu não pus pra fora ainda me é estranho. Eu acho o máximo quem sabe compor em parceria, acho um sinal de maturidade relacional artística, rs.....eu chego lá aos poucos, quem sabe....


Mas dessa vez foi fácil...eu li o poema da Aline, vi fotos da Lua. Escrevi um poema pra lua também, dentro do livro dela que tem espaço em branco pro leitor fazer suas próprias poesias. Neste livro Aline relaciona os poemas escritos para as fases lunares (7 pra cada uma delas) às fases do ciclo mestrual e eu me senti escrevendo também para a sensação de lua que nós, pessoas com útero, podemos sentir no ventre dependendo do dia e do momento.

Voltei ao poema de minha amiga irmã, fui lendo os versos em outras ordens, escutei música no meio disso tudo, estava num dia de João Bosco, que são muitos de meus dias....


Fui pro quarto, cantarolei, energia leve, "deixa vir a coisa boa", senti.

Nasceu a canção do video abaixo. Bem simples e balançada como a maré calma que o poema evoca. É bom quando é leve.

No fim do vídeo eu fiz a leitura do poema em sua conecepção original.


 
 
 

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