O Coletivo Chama e a bienal

Os compositores Fernando Vilela, Pedro Moraes, Renato Frazão, Thiago Thiago de Mello, Thiago Amud (Fotos: Janine Moraes - Minc)

Os compositores Fernando Vilela, Pedro Moraes, Renato Frazão, Thiago Thiago de Mello, Thiago Amud (Fotos: Janine Moraes - Minc)

Coletivo é chama, nos chama, convoca. E o Coletivo Chama chamou na chincha, veio com pé na porta, cara, coragem, manancial. Com Mário de Andrade, de piano, batera, cello, canções. E o foco nas fendas dos corações da Bienal.

Um grupo afiado de compositores de uma canção popular brasileira atual, atemporal e à margem (considerando-se o todo), encerrou na Sala Cecília Meirelles (RJ) a Bienal de Música Contemporânea 2015, a XXI Bienal, num inesquecível 19 de Outubro. Deixando zero a desejar. Causando o estranhamento que as ideias bem torneadas provocam, causando o encantamento que as ideias em movimento provocam. O convite era pro coração, sem dúvida, mas pelo ouvido entrava também uma demanda inegável: "vai, pensamento!".

O nome do concerto era "Coletivo Chama canta Mario de Andrade". O poeta esteve então enriquecido e estava lá enriquecendo o grupo na árdua tarefa de pertencer a praticamente lugar nenhum, posição já velha conhecida de quem pode se considerar à margem de alguma coisa.

Era "mpb"? Não sei... Era "erudito"? Sei lá, mas de certo que alguns responderiam que não, o Coletivo Chama , como foi muito bem dito no ato falho (?) de uma das falas de apresentação que o descreveu, estava ali num movimento de intrusão, talvez mais até do que de inclusão. Pois a palavra, quando potencializada, respeitada e de fato elevada a seu valor profundo, é intrusiva mesmo. Não prossegue sem tirar pelo menos alguma coisa do lugar, ainda que seja pra ser recebida com tédio, recusa, incômodo.

Quem achou que Mário de Andrade ia passar pela Cecília Meirelles como um daqueles cupcakes coloridos que hoje em dia todo mundo faz (e faz igual), independente de se saber sequer fazer boa massa de bolo, deve ter tido trabalho pra permanecer na cadeira. Mário de Andrade estava lá pra ser saboreado mesmo, com calma e detalhamento. Mário e as palavras do povo que ele colheu e verteu em verso. Junto das canções dos integrantes do Coletivo, que couberam perfeitamente no contexto, lindamente pinçadas para o show. Junto dos arranjo-composições que saíram das cabeças do Thiago Amud e do Ivo Senra e me emocionaram de orgulho. Junto das vozes firmes de cada um deles, cujos recados marejaram meus olhos, arrepiaram a nuca, tocaram e alegraram muitas pessoas, fizeram eu me sentir muito, muito sortuda (mesmo!) por poder também entoar a minha voz e veicular as palavras que eles costuram em suas composições.

Pode uma nota mudar tudo e a gente nem perceber por onde passou o cometa. Há o lugar onde a palavra não tocará jamais, porque nele nosso pensamento não sabe morar, não podemos captar pela lógica todas as riquezas universais que a música sem palavras consegue traduzir pra nós. Mas se elas, as palavras, se investem nas notas que querem mudar tudo, nos ampliando dentro da realidade que podemos acessar cotidianamente, riem pra nossa consciência e é ali que ficamos donos do crescimento. É quando vamos em direção à um tempo onde talvez elas, as palavras, deem conta de tudo ou onde talvez nem sejam mais necessárias.

Não importa se é ou não é "mpb", "erudito", pro rádio, pra tv, pro teatro, pra casa das pessoas, pros locais alternativos, pros carros, pros sonhos.... não importa o lugar. Ele é ali na canção de cada um deles, e esses compositores, e os outros, seus amigos que não são do grupo, sabem ocupar esse lugar bem pra cara%#$@&! São incansáveis em se aprimorar e em se ser, etiquetar não serve, anyway...

Toda vez que reflito sobre minha "carreira de cantora" e fico na dúvida se vale a pena buscar um espaço onde tantas vezes parece haver "apenas" um grande vazio me lembro de shows, ou recitais, como esse da Bienal. Em que sinto mais uma vez que não tem problema algum com o lugar se ele é, simplesmente, seu.

Pablo de Sá (cello), Ivo Senra (piano e arranjos), Fernando Vilela (voz e violão), Thiago de Mello (voz e violão) Pedro Sá Moraes (voz, guitarra e percussão), Renato Frazão (voz e violão), Thiago Amud (voz, violão e arranjos), Lúcio Vieira (bateria). Foto: Janine Moraes - Minc

Pablo de Sá (cello), Ivo Senra (piano e arranjos), Fernando Vilela (voz e violão), Thiago de Mello (voz e violão) Pedro Sá Moraes (voz, guitarra e percussão), Renato Frazão (voz e violão), Thiago Amud (voz, violão e arranjos), Lúcio Vieira (bateria).

Foto: Janine Moraes - Minc


(A saber, o Coletivo Chama é composto por: Cezar Altai, Fernando Vilela, Pedro Sá Moraes, Renato Frazão, Sergio Krakowski, Thiago Amud, Thiago Thiago de Mello)